Olá pessoal,
No SNE nós não discutimos apenas solos, mas também muito sobre educação e as formas de melhorar o atual cenário. O texto a seguir foi escrito por um dos nossos voluntários, o José, e trata sobre uma importante parte do atual processo de ensino: o vestibular. Confira:
"De
maneira a contribuir com a reflexão que temos feito sobre o ensino superior e,
sobretudo, sobre o INGRESSO nas universidades públicas brasileiras, me desafio
a escrever esse texto, em que tentarei trazer algumas reflexões construídas ao
longo desses últimos anos de vivência e contato com a realidade de inúmeros
jovens que ousam vencer a barreira do vestibular para garantirem um
direito.Vale lembrar que não é minha pretensão esgotar o debate e
possibilidades acerca do tema.
Nos últimos três anos atuei como
professor em um cursinho de Piracicaba, cursinho esse freqüentado
principalmente por estudantes oriundos daquilo que chamamos de classe
média/baixa, que em sua grande maioria tiveram sua (de)formação em escolas públicas com inúmeros problemas
estruturais e pedagógicos, pré vestibulandos, que juntamente ao grupo de
estudantes vindos do ensino privado não enxergaram ao longo de toda a sua
vida algum sentido sequer em se sentarem
em salas de aulas. Nesses três anos pude notar que a cobrança para passar pelo processo seletivo impõe aos
estudantes pós ensino médio, um novo estilo de vida para vencer o vestibular,
sendo necessário sacrificar as nossas potencialidades por um determinado
período de tempo.
Façamos um esforço em nossa memória
e nos coloquemos novamente no lugar de um estudante que recém saiu do ensino
médio. É uma etapa de nossas vidas em que existe uma cobrança externa e interna
muito grande, de repente somos obrigados a escolher uma “profissão” que
aparentemente nos definirá pelo resto de nossas vidas.
Essa escolha não é nada fácil, uma vez que já vivemos um pouquinho e lá no
fundo já aprendemos que somos seres inacabados em constante formação, em
constante mutação. Definir-se assim sem muito conhecer sobre a realidade dos
cursos e universidades é uma árdua tarefa, que piora ainda mais quando a
família se mostra um personagem que ao invés de apoiar e acompanhar passa a
atrapalhar, interferindo nessa decisão de maneira desastrosa, muitas vezes
inclusive dando prioridade para profissões de acordo com seu “prestígio” e
benefícios financeiros. Após decidido/a ou ainda em indecisão começa a maratona
de estudos; serão em torno de 9 meses pra decorar todo o conteúdo do ensino
médio, aprender como escrever uma redação nos moldes do vestibular e se decidir,
caso ainda não o tenha feito, será um momento em que de certa forma a vida irá
parar. Deixaremos de explorar nossas capacidades artísticas, sairemos menos e
apesar de todo foco e determinação muitas das vezes não sentiremos a felicidade
de maneira constante, porque dificilmente conseguiremos estar presentes de
corpo e alma nos momentos de ócio e lazer. O fantasma do vestibular nos
assombrará por todos os dias e noites, inclusive durante o período anterior à
divulgação dos resultados.
Durante o ano o ritmo tem que
acelerar e manter-se, a cada dia que passa a responsabilidade aumenta, assim
como também aumentam as fórmulas, datas, regras, normas, nomes e momentos
históricos para serem guardados. A pulga parece estar se multiplicando por detrás das duas orelhas. O que mais me chateia ao conversar com os pré-vestibulandos é notar que eles/as
praticamente nunca se divertem ao longo desse período.
Imaginemos que você esteja prestando um curso bastante concorrido, você sabe
que pra conseguir passar sua nota terá que ser altíssima. Para que isso seja
atingido você deve estar com todo o conteúdo na ponta da língua, ter um bom
controle do tempo para a realização da prova, e não deixar que algum sentimento
“bobo” te incomode durante o(s) dia(s) de prova.
A maioria dos estudantes deixa de buscar momentos de lazer de maneira a não dar
margem para comentários futuros como: “Bem,
ele não passou pois não deixou de ir nas festas com os amigos, não se deu por
inteiro”. Isso intensifica uma auto cobrança prejudicial para o processo
desse estudante, de forma que o que mais ouço dizer deles/as é que quando vão
para algum momento de lazer, um churrasco, por exemplo, durante praticamente
todo o tempo em que deveriam estar se divertindo estão na verdade pensando em
uma prova no final do ano, deixando de apreciar os momentos que fazem a vida
valer a pena, já que naquele momento talvez possa estar comprometendo todo o
esforço até então. Viver uma vida regida pela lógica do vestibular é perder um
precioso tempo da vida de exploração das potencialidades humanas, como já
citado anteriormente, somos seres inacabados, em constante formação (Paulo
Freire).
Para que essa “formação” se dê de maneira plena e saudável é necessário termos
tempo adequado para nos sentirmos, tempo para desenvolvermos habilidades
artísticas, tempo para que possamos nos conhecer e nos entendermos e não esse
“não tempo” para o amor, que em nossa sociedade infelizmente não nos é
proporcionado somente pelo vestibular.
É necessário revolucionarmos todo o
nosso sistema educacional, para além das mudanças no vestibular, de fato,
acredito que tivemos avanços como a adoção das cotas, mesmo que ainda seja
necessário avançarmos na concretização das cotas raciais, com a ampliação das
vagas e o SISU, a entrada nas universidades federais ficou “menos difícil” e
propiciou uma nova conformação no corpo discente das universidades, trazendo
mais diversidade de pensamentos, comportamentos e, o mais importante,
diversidade de realidades.
O espaço “público” das universidades públicas brasileiras continua sendo
“privado” para grande parte da população menos abastada. Na ESALQ, por exemplo,
quase 70% d@s ingressantes de 2013 estudaram em escolas particulares durante o
ensino médio. Políticas afirmativas se fazem necessárias para que a universidade
seja ocupada por grupos que ainda não se beneficiam desse direito, que no
Brasil é um privilégio. Em minha opinião o vestibular é um mecanismo para
barrar a entrada das pessoas nas universidades, e claro, não de todas as
pessoas, mais do que isso, o vestibular já nos molda para o modelo de
universidade que não priorizará o desenvolvimento de um senso crítico, não
promoverá grandes reflexões e nos empurrará para uma lógica especialista que
mais uma vez, não explorará nossas potencialidades humanas."
“Ei, irmão, nunca se esqueça
Na guarda, guerreiro, levanta a cabeça, truta
Onde estiver, seja lá como for
Tenha fé, porque até no lixão nasce flor” – Racionais MC’s Vida Loka PT.1
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Um abraço a todos